Caros irmãos e irmãs!
Em sintonia com a mensagem que nós, bispos do Regional Oeste 2, divulgamos por ocasião das Eleições Municipais de 2024, cumprindo nosso dever de pastores, dirigimos uma palavra sobre esse novo ano eleitoral em que serão escolhidos os próximos deputados e deputadas estaduais e federais, os senadores e as senadoras, o(a) governador(a) e o(a) presidente da República. Num processo eleitoral democrático, a população deve, livre e soberanamente, identificar e escolher os candidatos e as candidatas aos respectivos mandatos. Dos governadores e presidente da República, espera-se a conduta ética nas ações públicas, nos contratos assinados, nas relações com os demais agentes políticos e com os poderes econômicos. Dos deputados e deputadas, senadores e senadoras, requer-se a ação correta de fiscalização e legislação que não se baseie na simples identificação com a bancada de sustentação ou na oposição ao Executivo[1]. Sendo assim, tem igual importância a escolha tanto para os cargos do legislativo como para os do executivo, posto que nenhum dos poderes governa sozinho.
[1] CNBB – Doc. 91. Por uma reforma do estado com participação democrática, n. 40.
Espera-se do Estado como um todo, legislativo e executivo, a criação e a execução de políticas públicas que deem respostas eficientes para questões importantes como a educação de qualidade para as crianças e adolescentes, o sistema público de saúde eficiente e para todos, a segurança para vivermos em sociedade, a moradia digna e acessível à população de baixa renda, o cuidado com o meio ambiente – nossa casa comum –, a atenção especial aos povos indígenas, aos ribeirinhos e à população em situação de rua, entre outras.
Diante dessas exigências, será sempre desafiador discernir em quem votar; por isso, é importante verificar a história dos candidatos e candidatas, conhecer a trajetória e o passado de quem pede o nosso voto. É necessário verificar sua coerência ética e sua capacidade de servir à sociedade, evitando decisões baseadas apenas em emoções, preconceitos, fanatismos ou promessas. Não basta que um candidato se apresente com discurso religioso para merecer nossa confiança.
A Igreja Católica no Brasil tem longa tradição na valorização da Ficha Limpa[1] e na denúncia da imoral e antiética compra de votos que, considerada crime, passou a cassar os mandatos dos culpados[2]. Votar por troca de favores ou simplesmente por amizade pode comprometer seriamente nosso futuro. “Voto não tem preço, tem consequência”, como já foi afirmado inúmeras vezes em situações de eleição.
[1] Lei Complementar nº 135, de 04/06/2010.
[2] Lei nº 98.040, de 28/09/1999.
O principal critério de discernimento eleitoral deve ser o compromisso irrenunciável com a defesa integral da vida, desde a concepção até a morte natural, passando necessariamente pelos direitos humanos e sociais em todas as etapas da vida. Como exorta o Papa Leão XIV, se a vida deixar de ser reconhecida como um valor fundamental, que futuro podem ter as nossas sociedades? A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização[1].
[1] Papa Leão XIV. Discurso aos membros do Parlamento Espanhol, 08/06/2026.
A comunidade eclesial considera com estima aqueles e aquelas que, assumindo a vida pública, afetiva e efetivamente, se doam ao serviço do bem comum. A Igreja deve ser espaço favorável para que eles possam, no desempenho de sua missão, ouvindo a Palavra de Deus e os ensinamentos da Igreja, chegar ao melhor discernimento. As associações, os movimentos e outras expressões da comunidade cristã devem sentir-se encorajados a envolverem-se na formação, principalmente da Doutrina Social da Igreja, considerando seus princípios fundamentais: dignidade da pessoa, bem comum, solidariedade, subsidiariedade, destinação universal dos bens e participação. A tarefa da Igreja é formar consciências, abstendo-se de embates partidários e ideológicos, e por isso “não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política… mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça”[1].
Lembramos que todas as informações sobre os candidatos e candidatas em que se pretende votar são importantes. É preciso examinar em fontes seguras se essas informações, bem como as propostas apresentadas, correspondem à realidade. Infelizmente as mentiras, hoje potencializadas pela internet, particularmente pela manipulação da inteligência artificial (IA), têm a capacidade de mudar a vontade do voto popular. O Papa Leão XIV nos alerta enfatizando que “a utilização de plataformas digitais e sistemas de IA acelera mudanças profundas na comunicação pública e política. Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opiniões”[1]. Isto posto, eleitor e eleitora, não permita que a mentira determine seu voto.
No atual cenário complexo e polarizado, é fundamental repudiar quaisquer atitudes de violência e divisão, enquanto numa sociedade plural e democrática, é legítimo que todos tenham a possibilidade de chegar às suas próprias conclusões, que nem sempre serão, e nem precisam ser, iguais às dos outros. Nesse sentido, exortamos as nossas lideranças eclesiais que não permitam serem manipuladas e instrumentalizadas, especialmente em uma época em que o ritmo de vida e os conflitos fomentam atitudes de distanciamento e agressividade. O caminho deve ser o da unidade, consistindo em deixar de lado o que divide e procurar o que une, nunca justificando a divisão e a má vontade, mas sempre buscando o caminho da reconciliação. Sendo assim, como Igreja, vamos aproveitar a oportunidade de, num período eleitoral pacífico e participativo, ajudarmos a construir uma sociedade de comunhão e amizade social.
Encorajamos, por fim, os membros de nossas comunidades, os cristãos leigos e leigas, com vocação para a atuação política direta, a que se disponham a candidaturas, mantendo a adesão ao projeto de Jesus Cristo e o precioso sentido de pertença à sua comunidade de fé.
Nós, bispos das Dioceses e Prelazia do Estado de Mato Grosso – Regional Oeste 2 da CNBB, conclamamos a todos e todas a nos unir e rezar pelo bom êxito das próximas eleições, e invocamos as bênçãos de Deus sobre os candidatos e candidatas, eleitores e eleitoras. Que Nossa Senhora Aparecida nos conduza pelos caminhos da justiça, da fraternidade e da paz.
Cuiabá, 18 de junho de 2026.