A “vergonhosa” posição do Estado de Mato Grosso como um dos mais violentos do País contra a mulher – inclusive em número de feminicídios – foi uma das citações do bispo diocesano de Rondonópolis-Guiratinga, Dom Maurício da Silva Jardim, na homilia da Missa deste domingo (28/12), que marcou também o encerramento do Ano Santo Jubilar 2025, sobre o tema ‘Peregrinos da Esperança’.
O bispo começou explicando que o Jubileu é um “dom especial da graça”, caracterizado pelo perdão dos pecados e, em particular, pela indulgência, expressão plena da misericórdia de Deus. “Os pecados são todos perdoados na Confissão – o Sacramento da Reconciliação. A Indulgência plenária apaga a marca deles”, ensinou, apontando o Ano Jubilar como “um tempo de renovação espiritual” que “marcou os 2025 anos da Encarnação de Jesus Cristo”.
Conforme Dom Maurício, na diocese, 2025 foi marcado por “atividades com o objetivo de fortalecer a fé e a esperança entre os cristãos”, promovendo solidariedade e a fraternidade e renovando “o compromisso com a oração, a caridade e as práticas sacramentais”, apontando ao Povo de Deus o “caminho permanente de conversão pessoal e comunitária”.
LITURGIA – A citação de Dom Maurício sobre a violência contra a mulher veio na partilha da Liturgia da Palavra – que no último domingo do ano apresentou a Festa da Sagrada Família – Jesus, Maria e José.
O bispo deu ênfase ao contesto da primeira leitura, tirada do livro do Eclesiástico, que fala das promessas de Deus para os filhos que honram e respeitam pai e mãe. “Quem honra seus pais, alcança o perdão dos pecados, evita cometê-los e será ouvido na oração cotidiana. É como alguém que ajunta tesouros, terá alegria com seus próprios filhos e terá vida longa. A caridade feita aos pais não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados”, afirmou.
CASAIS E FILHOS – Dom Maurício também citou a segunda leitura – da Carta de Paulo aos Colossenses – ressaltando que a relação entre os casais e seus filhos deve ser revestida de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando uns aos outros e perdoando-vos mutuamente. “A carta de São Paulo aos Colossenses pede que haja amor um com o outro, pois o amor é vínculo da perfeição. A relação entre o casal deve ser de reciprocidade e não de domínio ou superioridade sobre o outro. O homem não é superior a mulher, pois Deus criou homem e mulher a sua imagem e semelhança. Ambos têm a mesma dignidade de Filhos de Deus, por isso mesmo, a submissão e o domínio de um sobre o outro, não se justificam na lei de Deus”, catequisou. O mesmo deve ser considerado na relação entre pais e filhos, pelo testemunho e pelo cuidado amoroso em conformidade com a Palavra de Deus.
VERGONHA – “Quando esta palavra é colocada em prática, a violência doméstica, os abusos de poder e as agressões acabam. Infelizmente, estamos no estado do Brasil em que mais se comete feminicídio. É um dado que nos envergonha. Acompanhando as notícias, os casos de cárcere privado, enforcamentos, estupro, ameaças e mortes de mulheres, continuam nos dias atuais. Entre as motivações desta violência está o complexo de superioridade de homens sobre as mulheres. Esta realidade pode e dever mudar aqui em nosso estado do Mato Grosso e no país. Chega de violências contra as mulheres. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Amém”? –
SAGRADA FAMÍLIA – Dom Maurício também fez uma detalhada meditação sobre o evento da “fuga para o Egito”, citada no Evangelho de Mateus, onde José dá crédito e obedece a palavra do anjo: “recebe, discerne e age”, livrando Menino Jesus da fúria mortal de Herodes. E Maria cumpre sua missão na total disponibilidade ao plano de Deus, que começou com a sua declaração: Eis aqui a Serva do Senhor. “A família cristã é chamada para guardar e transmitir o dom de Deus à humanidade. A missão nasce não da segurança, mas da escuta; não da força, mas da confiança. A Sagrada Família torna-se, assim, um ícone de toda família cristã, enviada ao mundo como exemplo vivo do Evangelho”.
DISPONIBILIDADE PLENA – “José não pede explicações, não busca confirmação, ele obedece ao misterioso plano divino e leva Jesus ao Egito. Maria não profere palavras. Ela acompanha seu Filho em sua precariedade, compartilha seu exílio, aceita uma vida marcada pelo medo e pela pobreza. Ela continua a crer que Deus está agindo. Seu serviço é humilde porque não busca visibilidade; é silencioso porque se apoia no Espírito e não em palavras. O testemunho de Maria ilumina a missão de tantas mães, mulheres e fiéis que evangelizam através do cuidado, da paciência e da capacidade de sofrer sem perder a esperança. Maria nos ensina que o mundo também é salvo pelo amor oculto, o amor que não vira manchete, mas sustenta a vida”, pregou.
AO LADO DO MARGINALIZADOS – Dom Maurício finalizou a meditação citando que Jesus – no episódio – ainda não proclama o Reino com palavras, mas com a própria vida. “O Filho de Deus entra na história ao lado dos perseguidos, exilados e ameaçados. O Egito, lugar de escravidão para Israel, torna-se o primeiro refúgio do Salvador. Sua missão é compartilhar plenamente nossa fragilidade, arriscar-se pelo amor, deixar-se confiar nas mãos de uma família pobre e vulnerável. Isso nos mostra que a missão do Filho não é o poder, mas o serviço; não a dominação, mas a proximidade para compartilhar o amor divino com todos, ao longo do caminho. Toda família cristã se torna missionária quando permite que Jesus viva em sua própria história”, catequisou o bispo, finalizando com uma indagação: “Como vai a nossa família? Nas relações entre o casal; entre pais e filhos e filhos com seus pais, o que pode ser melhorado”?
